A filosofia, o percurso e o mundo

Recontextualizar a filosofia para mantê-la viva

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Em meu percurso de pesquisa filosófica comecei por um encantamento com a filosofia existencialista e ao conhecer a obra de Albert Camus, por uma ótica filosófica, decidi estudar a filosofia do Absurdo.

A filosofia do absurdo afirma que é necessária uma fidelidade absoluta para viver consigo mesmo neste mundo sem sentido. É no interior de sua consciência que o homem deve validar seus atos e, consequentemente, no mundo. É nesse contexto que se afirma a validade da compreensão da filosofia do Absurdo e da Revolta. Uma filosofia que tem como base a moral do não, que condena a história e se alimenta de acontecimentos históricos sem precedentes, que questiona o homem contemporâneo e sua relação com o mundo na busca incessante de uma moral. Camus rejeita todas as fugas consoladoras de uma realização no futuro e afirma a validade da lucidez contra o conformismo banalizante.

Através da decupação do ensaio O Mito de Sísifo, em que Camus desenvolve o tema do absurdo, explanei como o homem identifica o absurdo e se situa diante dele. Uma análise do romance O Estrangeiro foi incluída, pois nele Camus desenvolve a sua teoria em forma de narrativa, exemplificando os atos de uma vida absurda em seu confronto com o mundo. Abordei, finalmente, como a instauração da consciência leva o homem à Revolta e, assim, à sua responsabilidade na ação ou não-ação no mundo, utilizando como base o ensaio O Homem Revoltado, apenas na medida em que o tema escolhido foi tratado.

Quatro anos depois resolvi seguir a pesquisa acadêmica e dei uma guinada em minha área ao me deparar com o texto de um autor contemporâneo, Richard Rorty, ainda vivo na época. Em princípio achei que estava rompendo com toda uma base de formação epistemológica, entretanto acabei por concluir que existia complementariedade entre os trabalhos.

Quando em 1979 Rorty publica A Filosofia e o Espelho da Natureza ele foi criticado na Europa por ser um filósofo de tradição analítica que estaria rompendo com essa tradição, mas sem abraçar o correto caminho da confiança na razão. Nos Estados Unidos, por outro lado, ao tempo que fazia ressurgir o pragmatismo, ele foi criticado por estar cedendo “ao obscurantismo pós-modernista dos europeus” renegando assim a melhor parte de Dewey. E, pecado maior, ele estaria flertando com o “pessoal de letras”, não sendo rigoroso o suficiente, como exigia a ciência filosófica.

Suas ideias giram em torno de alguns eixos principais:

1) não é a filosofia que fundamenta a democracia, mas a democracia que oferece o campo de desenvolvimento ideal da filosofia;

2) a filosofia pode ser útil ao nos ajudar a responder: o que queremos fazer de nós? Ao invés de tentar inutilmente responder quem ou o quê somos;

3) cuidemos da liberdade que a verdade cuidará de si sozinha.

Na prática, em seus escritos, ele nunca deixou de falar de verdade, mas sempre assumindo que a verdade “em si” não existe. A verdade não pode ser independente dos enunciados do falante.

Não foi simples compreender o que Rorty dizia. Apesar da clareza de seus textos aprendi que uma pesquisa acadêmica se faz de re-leituras. É apenas na terceira ou quarta vez que uma frase salta aos nossos olhos e começa a se encadear com diversas outras frases lidas em outros livros. E as frases se encadeiam e passam a ter sentido dentro do contexto cultural que vivemos. Criamos inter-relações e assim construímos os significados. E o caminho é diversas vezes refeito. Gastei boa parte de minha pesquisa buscando a verdade em Rorty e só na metade do percurso foi que compreendi que não havia verdade a ser buscada. Nem em Rorty nem na filosofia. E a filosofia não tem verdade a buscar porque ela é apenas um gênero cultural, uma “voz na conversação da humanidade” que se centra num tópico em vez de noutro numa dada época, não por necessidade dialética, mas em resultado de vários fatores que se passam numa perspectiva holística do conhecimento.

Ao defender que a capacidade de reflexão e compreensão do ser humano deve ser vista mais como um histórico contingente, um processo evolutivo de adaptação às circunstâncias históricas e sociais, que só pode responder a questões pontuais Rorty me ajudou a reencontrar um caminho para o tipo de filosofia que me atraiu inicialmente.

Mudar o papel do filósofo e da filosofia dentro da sociedade democrática não é decretar o fim da filosofia e dos filósofos em geral. É recontextualizar o seu papel de forma que a filosofia tenha uma aplicação social. Abandonar a filosofia enquanto assunto técnico de especialistas é uma forma de manter a filosofia viva. Voltei ao percurso de, como Camus, validar a filosofia no mundo.

Livros para quem ama… livros

Ler pode ser o mais revolucionário e libertário dos atos individuais

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Livros, novos, com cheiro de tinta, ainda puros e intocados, permissivos às suas mãos e olhos vorazes. Livros, velhos e cheios de nódoas, amarelados pela luz, manuseados por mão diversas, marcados pelo suor. Edições simples e baratas, ou sofisticadas e luxuosas, de capa dura em letras de ouro ou de miolo em papel jornal. Diagramações gulosas, que enchem a página com margens mínimas, design espaçados e elegantes, de base alta e limpa. Quem ama ler, ama livros, não importa a forma. Seu conteúdo é mais importante. Mas isso não torna menos fetichista seu invólucro. Que leitor não cobiça os livros de luxo e alto valor literário da Bibliothèque de la Pléiade ou tem coleções de bolso em papel jornal dos clássicos noir? Quem nunca foi fisgado por uma capa de um autor que nunca ouviu falar ou foi o primeiro a abrir uma livraria para comprar o lançamento daquele autor adorado?

Abaixo 5 livros para quem ama livros. E você? Tem a sua lista?

Uma história da leitura, Alberto Manguel

Nesta obra fascinante Alberto Manguel relata a evolução do leitor com a leitura, o prazer do aprendizado com os livros, a descoberta de uma palavra e seus muito significados, a ansiedade de se chegar ao final de uma história, além de deliciosos relatos de personalidades e suas experiências e descobertas com o ato de ler.

Os livros e os dias, Alberto Manguel

Mais de Manguel, mas é que ele é um mestre na área. Misto de diário pessoal e ensaio crítico, Manguel faz aqui o que se tem chamado de bliblioterapia. Utiliza os livros para traçar paralelos com a vida cotidiana, o noticiário político, a crise de valores e ideologias, com obras seminais da literatura.

A paixão pelos livros, diversos autores

De Flaubert a Caetano Veloso, de Platão a Montaigne, de Petrarca a Carlos Drumond de Andrade, uma deliciosa seleção de textos de quem ama livros sobre suas leituras, experiências, observações, poesias e análises relacionadas à ato de ler.

Fantasmas na biblioteca, Jacques Bonnet

Bibliofilia, ou a arte de colecionar livros, um mal que acomete quase todos os leitores vorazes. Leitor desapegado do objeto livro é coisa difícil de se encontrar. E como esses leitores organizam suas bibliotecas? Passando por grandes bibliotecas públicas e privadas e suas formas de organização padrão ou extremamente pessoais, nos identificamos todos os que já tiveram dificuldade de encontrar o lugar exato de um livro em sua coleção. E não, quem ama livros não organiza bibliotecas por cor.

A construção do livro, Emanuel Araújo*

Esse é uma espécie de bíblia para mim. É uma obra de referência para profissionais e leigos que se aventuram nos caminhos da produção editorial. Nele você encontra absolutamente tudo sobre o universo do livro: organização, imagens, abreviaturas, preparação de originais, tipos de impressão, tipos de letra, papel. É um livro de consulta para quem faz ou quer fazer livros. E para fanáticos por livros também.

*Não é o Emanoel Araujo, artista, curador e diretor do Museu AfroBrasil.

Não quero ir pra Marte nenhum

Ainda hoje, série representa mulher como tendo por objetivo de vida encontrar o par perfeito

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Em tempos de forte renascimento do feminismo, direitos da mulher, emponderamento e questões de igualdade de gênero permeando as mais triviais conversas é difícil entender como um programa como “Os homens são de Marte… e é pra lá que eu vou” ainda fazem sucesso. O vazio existencial da personagem, que é interpretada por sua criadora, é o mais gritante. Frases como “amo estar apaixonada” e “sou apaixonada pelo amor” dão o tom, isso com uma mulher dita realizada financeiramente, mas cujo único objetivo na vida é encontrar um homem para estar ao seu lado. Certo que todo mundo busca alguém para estar ao seu lado. Viver sozinho pode ser muito duro. Não é esse o problema. O problema é fazer de ter alguém ao seu lado o único sentido da vida. As situações apresentadas são fracas e não existe arco emocional forte o suficiente para justificar o drama ou o nível de decepção da personagem a cada novo par que a desilude. E todos a desiludem porque, no fim, ela não está buscando por um companheiro, mas por algum tipo de super-homem que compense e resolva todos os problemas que ela tem. Sendo que ela diz, ou tenta mostrar ser, totalmente capaz de resolver os próprios problemas. Mas a cada novo homem ela muda de comportamento, de gostos, de interesses. Ela não é em si. Ela é um para o outro, qualquer que seja o outro disponível. Existe uma clara tentativa de aproximação com Comer, Rezar, Amar, ao qual também tenho críticas, mas elas não cabem aqui. Só que fica a léguas de distância porque em Comer… a personagem está em busca de si mesma. Ela não sai em busca de um outro que dê sentido à sua vida. Ela sai em busca de um sentido na vida que tem, ou que precisa mudar. O amor acontece, porque o amor… acontece. E parece tudo tão natural e tranquilo que não tem como não torcer pelo casal que queremos formado.

O filme de Os homens são de Marte… é uma lástima do mesmo nível. Não assisti a peça. Mas então vejam, a partir de uma peça de teatro, que ficou 9 anos em cartaz, foi feito o longa-metragem, com mais de 2 milhões de espectadores, e tem a série no GNT, em sua terceira temporada. Isso quer dizer algo. Não sei se significa que estamos na luta pelos direitos à igualdade mas ainda nos falta maturidade emocional. Ou que é uma série tola, a qual não devemos dar maior relevância. A mim incomoda a falta de qualidade e de substância, e que ainda sejamos retratadas como completas apenas quando temos um homem ao lado. Somo bem mais do que isso.

PS: Pesquisei se existiam críticas ao programa e, creiam, todas são elogiosas. Acho que sou uma das poucas vozes dissonantes.

Lançamento Programa de Acessibilidade – Instituto Tomie Ohtake

No dia 11 de março acontece o lançamento do Programa de Acessibilidade do Instituto Tomie Ohtake!

Reproduzo abaixo iniciativa inclusiva do Instituto Tomie Ohtake, um dos meus locais preferidos de São Paulo. Por mais programas assim.

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No dia 11 de março acontece o lançamento do Programa de Acessibilidade do Instituto Tomie Ohtake! Durante o dia todo, aconteceram diversas atividades gratuitas destinadas a todos os públicos, e que contarão com recursos de audiodescrição e intérprete de libras.

Programação
11h – Manhãs de História – Sem Título: Arte Contemporânea
14h – No Colo – Atividade para bebês e famílias: texturas de Tomie
14h30 – Oficinas Acessíveis – Bichos de madeira
15h – Oficinas Acessíveis – Parkour para idosos
16h – Encontros Urbanos
19h – O Evangelho Segundo Jesus, Rainha dos Céus

Obs: É necessário se inscrever para algumas atividades.
Para inscrições acesse: https://goo.gl/fFtNL2

O Programa de Acessibilidade
No entendimento contemporâneo de que acessibilidade significa oferecer condições de acesso à cultura não só a pessoas com deficiência, mas também àquelas em situação de vulnerabilidade social, o Instituto Tomie Ohtake, em parceria com a Cielo, por meio da Lei de incentivo do Ministério da Cultura, ampliou seu Programa de Acessibilidade, criado em 2015, alinhando-se ao pensamento mais avançado de instituições sociais e culturais no mundo.

Nessa visão atualizada de acessibilidade, os processos desenvolvidos buscam integrar o atendimento a pessoas com deficiências e em situação de vulnerabilidade social ao público em geral, gerando espaços de encontro e diversidade. Para celebrar o lançamento do programa, no sábado, 11 de março, acontecem no Instituto Tomie Ohtake diversas atividades gratuitas destinadas a todos os públicos, e que contarão com recursos de audiodescrição e intérprete de libras.

O Programa de Acessibilidade do Instituto Tomie Ohtake 2017, ao incluir grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade social, passa a alcançar crianças e adolescentes abrigados; mulheres com filhos pequenos em situação de rua; idosos em situação de rua ou com limitação de locomoção; adultos em situação de rua; jovens em liberdade assistida; jovens moradores da periferia de São Paulo; profissionais da assistência social responsáveis pela abordagem de pessoas em situação de rua; crianças vítimas de exploração sexual e trabalho infantil, populações LGBT, entre outros.

Para este ano, foram definidas três áreas de atuação: o Instituto Tomie Ohtake e seu entorno, a região do Canindé, em São Paulo, e a cidade de Recife (PE). As ações são realizadas por meio de uma rede de parcerias com instituições públicas e privadas, como escolas, ONGs, equipamentos de cultura, saúde e assistência social que já desenvolvem trabalhos alinhados ao programa.

Meus limites são meus

É preciso confiar na capacidade do outro, e na de uma pessoa com deficiência tanto quanto na de qualquer outro.

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Regra básica na relação com Pessoas com Deficiência: não é você quem dá limites, é a pessoa com deficiência quem te diz quais os próprios limites. Me refiro a qualquer tipo de relação. Amizade, profissional, amorosa. Você não pode dizer ao outro o que ele pode ou não fazer. Só um deficiente conhece bem suas próprias limitações. E se quiser se arriscar, testar seus limites, é um direito que lhe assiste. A tendência de pessoas sem deficiência e achar que só de olhar sabe até onde o outro pode ir. Como para qualquer outra pessoa, a pessoa com deficiência pode cair, se machucar, não conseguir. Mas ele sabe os seus limites e seus desejos. A quem estiver ao lado cabe estar ali com a mão estendida, caso necessário. Dizer não pode ao outro é um prejulgamento do qual se deve fugir. Pessoas sem braços e pernas conseguem nadar, pessoas sem braços ou sem pernas conseguem dirigir carros adaptados, pessoas sem braços conseguem cuidar de uma casa, com as devidas adaptações. Cada ser humano tem o direito de testar seus limites e possibilidades. E só assim vai se conhecer e interagir bem no mundo onde vive.

Quando eu tinha por volta de 5 anos eu estava brincando no tanque de areia de uma pracinha com outras crianças. Uma das crianças me derrubou no meio de uma brincadeira. A mãe dela fez menção de vir correndo, apavorada e preocupada, pronta a me levantar. Lembro de minha tia nem se abalar. Disse para ela não se preocupar. Falou comigo: Tudo bem, minha filha? Machucou? Eu respondi que não e ela replicou: Criança é assim mesmo, cai, e se não machucou, levanta. Se machucar, a gente cuida. É da vida. Pode voltar a brincar. Estávamos em suspenso, eu e a outra menina até o fim das ações dos adultos. Lembro do orgulho que senti de mim mesma, da força que senti que tinha. E de quanto eu devo à minha tia essa educação forte e sem superproteção só porque eu tinha limitacões físicas. Do quanto isso me ajudou na vida. Desde então nunca, jamais, permiti que quem quer que fosse me dissesse quais eram os meus limites. Eu me dou os meus limites. Já fiz trilha, nadei em rio, pulei de barco e nadei até à praia, escalei, andei de moto, pulei carnaval. Nada insano ou perigoso. Sempre dentro do que eu achava que daria, e no fim dava. É preciso confiar na capacidade do outro, e na de uma pessoa com deficiência tanto quanto na de qualquer outro. Se a gente cair, levanta. Se precisar ajudar, ajude. Mas não limite.