A literatura da vida privada

Fonte: A literatura da vida privada

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A literatura da vida privada

Em tempos de autoficção parece não haver mais espaço para a literatura como arte da criação, que ao fim e ao cabo sempre se utilizou do real, mas reconhecendo sua impossibilidade de ultrapassá-lo

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“Na alquimia do texto há uma transformação que ocorre através das escolhas de certos autores pelas palavras e que permite ao leitor recriar essa experiência da realidade.” Alberto Manguel

Terminei de ler Um outro amor de Karl Ove Knausgård. Já tinha lido A Morte do pai. Aclamado no mundo todo, sucesso de público e crítica, fazem parte de um conjunto de 6 livros nos quais Karl Ove conta a sua vida, infância, juventude, a relação com o pai alcoólatra, a mudança para a Suécia, o amor pela mulher e a relação de um pai que se constrói no dia-a-dia. É o que se tem convencionado chamar de autoficção. Ou seja, ele conta a sua própria história de forma romanceada, atendo-se aos mais prosaicos detalhes, se detendo em um simples jantar por mais de cem páginas, descrevendo minuciosamente um despertar, escovar os dentes, se trocar, levar as crianças para a escola. Karl Ove criou uma forma muito pessoal de contar seu percurso. Apesar da banalidade dos atos, ficamos fascinados e desejando saber o que vai acontecer. Isso tudo entremeado de digressões filosófico-existenciais, sua busca por expressão na literatura e seu papel como homem dentro da sociedade atual, na relação com a mulher e os filhos. Por essa capacidade de falar do banal, com detalhadas descrições narrativas e um domínio indiscutível da escrita, tem sido comparado a Proust. Mas existem outros adjetivos que acompanham as críticas elogiosas que fazem à sua obra. Honestidade implacável e crueza arrebatadora estão entre elas. Ele não fala apenas de si, mas de seus familiares, amigos e de sua companheira, nos termos mais diretos. Percebemos carinho em suas relações, mas ele não se furta em descrever os mais íntimos detalhes da personalidade dos que o cercam, deixando-os em um palco expositivo do qual poucos conseguem sair ilesos. Ao falar de sua vida e dos que estão à sua volta em detalhes minuciosos de comportamentos egoístas e pouco lisonjeiros em nome de sua arte e desejo de expressão ele avança limites que pertencem aos outros. Em suas entrevistas ele se justifica dizendo que toda a obra é na verdade sobre sua relação com seu pai e que ninguém tem o direito de não o deixar falar sobre uma relação que a ele pertence. Mas não é apenas o pai que ele expõe, em uma relação bastante marcante e difícil, mas toda e qualquer pessoa que passa por sua vida. Não são apenas fatos reais. São pessoas reais em seus momentos de fragilidade, inseguranças, manias, despeitos, egoísmos. A expressão artística tem de fato o direito de passar por cima dos sentimentos e da privacidade alheia para se realizar? Do que trata de fato essa literatura que não se compraz mais na criação da ficção e busca ficcionar a vida real em um eterno Big Brother? A ficção ficou limitada perante a vida que sempre a supera? E de onde vem esse elogio da crueza como forma artística sublime? Há pouco terminei também a Tetralogia Napolitana, de Elena Ferrante. Neste caso, até onde se sabe já que a autora real é desconhecida publicamente*, totalmente ficção, mas igualmente elogiado por sua crueza. Em tempos outros nos refugiávamos na arte para escapar da vida. Parece que agora nos lançamos cada vez mais de forma violenta na vida para escaparmos da beleza que podemos criar. Violenta aqui no sentido de visceral, total e irremediavelmente expositiva, como se ao mostrar nossas entranhas conseguíssemos resgatar nossa humanidade. Como se assim pudéssemos nos perdoar e purificar de nossa condição fugidia e permanecer de alguma forma, mesmo que apenas reduzidos a objetos examináveis.

Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, disse que “a arte baseia-se na vida, porém não como matéria mas como forma”. A vida como matéria que reduz o outro a simples objeto é estranha. Ao leitor dos tempos atuais é oferecido o espetáculo da vida que não pode ser outra, já que real, negando assim a recriação interna que sempre acompanhou a literatura. Novas formas de expressão com novos limites a serem recriados.

*Supostamente seria Anita Raja, tradutora italiana.

 

Somos melhores

O discurso fácil de que todo político é corrupto é um mal tanto quanto a definição de que nossa sociedade é corrupta em si.

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Está virando senso comum dizer que o Brasil é um país corrupto. Esta classificação de país corrupto ultrapassou as fronteiras dos dois poderes e se estendeu para a população em geral. Então, quando falam em país corrupto, se referem a toda a população do país, políticos, poderosos, ricos, pobres, trabalhadores. Isso inclui o dono da banca de Jornais, na esquina de sua casa, os trabalhadores da padaria no caminho do metrô, a moça do cafezinho, na entrada do prédio que você trabalha. Inclui o porteiro do prédio, a diarista do vizinho, a manicure da sua mãe. Isso inclui você. Mas não é de você que se trata esse texto. Não vou te convidar aqui para fazer um balanço sobre se seu comportamento é corruptor ou corruptível. Se você acelera além do permitido, se bebe e dirige, se burla blitz, sonega imposto ou não assina a carteira dos seus empregados. Se combina o serviço da assistência técnica com o prestador por fora, para pagar mais barato. Mesmo não validando essas atitudes tendo a não considerá-las em equivalência com desvios de verbas e malas de dinheiro.

A teoria em voga, que tem ganhado cada vez mais adeptos, diz que temos um conjunto de poder político corrupto porque temos uma sociedade corrupta. Nossos políticos seriam o espelho da nossa sociedade. O fato de termos um sistema eleitoral representativo seria o argumento definitivo.

Entretanto não vemos nenhum político defendendo maus-feitos. Seja em campanha ou fora dela, os políticos se elegem prometendo segurança, trabalho, educação e saúde. Diferem na forma de alcançar esses objetivos, mas nunca nos objetivos em si. Considerando apenas os objetivos apresentados pelos políticos é até difícil diferenciá-los. Todos parecem querer as mesmas coisas. Não entrando aqui nos temas socialmente mais polêmicos, mas considerando apenas as linhas gerais. É com essa plataforma que eles são eleitos. A sociedade em conjunto está em busca de estabilidade para tocar sua vida. Individualmente e no conjunto, tudo o que as pessoas querem é um trabalho digno, atendimento médico qualificado, educação de qualidade e segurança para ir e vir.

O desejo individual das pessoas está dissociado do comportamento real da maioria dos políticos. Os nossos políticos não nos representam e muito menos nos espelham. O discurso fácil de que todo político é corrupto é um mal tanto quanto a definição de que nossa sociedade é corrupta em si.

Se cada um de nós fizer um levantamento mental das pessoas que conhece e de como elas se comportam no dia a dia pode ficar bem surpreso com o resultado. Um povo que trabalha enfrentando as dificuldades que o nosso enfrenta: transporte público precário, exploração salarial, burocracia, descaso em atendimento médico, educação deficitária, falta de saneamento básico, mas que continua todos os dias a ir trabalhar ou buscar emprego, que na maioria das vezes é educado, gentil e sabe sempre rir das próprias mazelas (não desprezem o valor do riso na vida!). Um povo que continuamente acredita no futuro e luta, no dia a dia, na lida diária, por melhores condições. Não devemos olhar para a nossa sociedade como um conceito abstrato e difuso de pessoas sem face. Nossa sociedade é formada da miríade de anônimos que podemos nomear, personalizar e reconhecer.

Sociedade essa que foi criada na absoluta desigualdade e artificial criação de castas privilegiadas. Desde as Capitanias Hereditárias, passando pela vinda da Família Real Portuguesa, com sua corte de desocupados, à criação de nossa República, fomos marcados por uma camada de pessoas que tinham acesso ao bem viver em oposição a uma sociedade a quem tudo era negado. Nos construímos na dificuldade, tentando burlar burocracias e barreiras que não nos deixaram ter acesso a ferramentas que melhorassem nossa qualidade de vida. E, se não passamos pelas correntes históricas ascendentes e revolucionárias que foram mudando o perfil dos países reconhecidos como desenvolvidos e distribuindo a renda de forma um pouco mais igualitária, nem por isso fomos um povo acomodado. Nossa identidade foi construída por uma série de revoltas, revoluções, conflitos sociais (aconselho vivamente a leitura de Brasil: uma Biografia de Lilia Schwarcz e Heliosa Starling). O malfadado “jeitinho brasileiro” nasceu de uma necessidade de não se deixar massacrar todo o tempo, o tempo todo. Nasceu como arma de sobrevivência de um povo desarmado em acesso à educação, a mais letal das armas. Uma pesquisa por alto nos países desenvolvidos mostra o vertiginoso crescimento do acesso à educação do início do século XX para cá, e de como isso foi fundamental para as mulheres, os negros e os mais pobres. No Brasil isso nos foi sucessivamente negado.

Por outro lado, a grande quantidade de políticos corruptos que tomou assento no Executivo e Legislativo tem sido difícil de compreender. Talvez protegidos por um Judiciário leniente, por um sistema eleitoral apadrinhado, por uma crescente ignorância sobre o que é legislar, o que é o público e como separá-lo do privado, esse um problema que atinge a toda a população. Esses políticos, e não todos os políticos, não nos representam, não nos espelham. E, questão fundamental, os líderes políticos deveriam ser um modelo a ser seguido. Não é a sociedade, apenas, que deve dar o exemplo. Os nossos líderes têm obrigação moral de fazê-lo. Bons líderes nos fazem querer sermos melhores. Pensem em como uma boa professora foi importante em sua formação. Em como aquele parente que te incentivou a ler e estudar foi um marco em sua vida. Em como aquela mulher simples lhe inspirou com seu trabalho. Da mesma forma que educamos nossas crianças em casa nossa sociedade precisa de bons exemplos em ação e virtude para se sentir e se fazer melhor e mais confiante.

Temos falhado como sociedade em conseguir atrair para a política verdadeiros homens de espírito público, interessados em melhorar o bem-estar social. Eles existem, tenho a certeza. Precisamos saber como impulsioná-los. E sim, somos muito melhores do que querem nos fazer crer. Citando Eduardo Giannetti, somos um país que pode muito mais, “com um ideal de vida assentado na tranquilidade de ser o que se é… um outro Brasil, nem mais verdadeiro nem mais falso que o existente – apenas reconciliado consigo próprio.”

Papel A2 lança curso de produção gráfica

Editora responsável pelos quadrinhos de Flávio Luiz realizará a atividade em agosto e capacitará alunos a compreender os processos de produção de diferentes tipos impressos

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A Papel A2 Texto & Arte traz ao público interessado em diferentes processos de produção de tipos impressos o seu “Curso Básico de Produção Gráfica”, que acontecerá no dia 1º de agosto às 19h, na Workup Solutions, em São Paulo. O curso será ministrado por Lica de Souza, produtora gráfica, editorial e cultural e mestre em filosofia, com 30 anos de experiência em produção e responsável pela produção dos quadrinhos do cartunista Flávio Luiz, como “O Cabra” e “Aú, O Capoeirista”, trabalhos altamente reconhecidos pela qualidade gráfica.

O curso terá duração de 3 horas e abordará, por meio de aula teórica com modelos e vídeos, conteúdos nas áreas de pré-impressão, impressão e pós-impressão, como criação e fechamento de arquivos, sistemas de impressão, provas de cor, entre outros. Ótima oportunidade para o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos relacionados ao tema, o curso é voltado para estudantes, profissionais, empreendedores e interessados na área, que poderão se inscrever nesse link com um investimento de R$ 270,00.

Esta é a oportunidade perfeita para aqueles que desejam realizar suas primeiras produções, mas têm dúvidas quanto ao processo. O “Curso Básico de Produção Gráfica” dará as ferramentas para que os alunos passem de uma idealização adequada a uma concretização bem realizada, de qualidade, e ainda oferece certificado digital e apostila que poderá ser posteriormente consultada. Interessou? Não deixe de fazer sua inscrição pela internet. A Workup Solutions fica na Bela Vista, próxima ao metrô Trianon-Masp. Para maiores informações e/ou dúvidas, entre em contato pelo email papela2@uol.com.br.

Link do curso: https://www.eventbrite.com.br/e/curso-basico-de-producao-grafica-tickets-35465968667?aff=affiliate1

Se cair, levanta!

Caímos, literal e metaforicamente, diversas vezes ao longo de uma existência.

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Quando eu vou entrar em um lugar público, recepção de prédio, empresas e afins, a primeira coisa que me preocupa é se o chão é de mármore. Chão de mármore é um terror na vida de quem tem problemas de locomoção. Bengalas, muletas, pernas mais curtas, não se dão com chão de mármore ou muito lisos. Mulheres com saltos muito finos e altos e homens com sapatos novos também não. Porque, imagina, eu entrando no local e me esborrachando no chão. As pessoas ficam constrangidas e eu também. Cair na frente dos outros nos fragiliza. Exceto em situações muito descontraídas. Se você é adolescente, está em uma turma de amigos e não está tentando impressionar. Você cai, todo mundo dá risada, e se você estiver em um ambiente seguro, ri também. Quando a gente é criança a gente chora um pouquinho, o mais velho presente te faz um afago, e está esquecido. Mas, quando adultos, cair em público tem um peso de falibilidade que nem sempre queremos expor. Cair na frente dos outros expõe nossa fragilidade para um público que não controlamos. Vão me desprezar? Me ridicularizar? Sentir pena de mim?

Quando eu tinha uns 5 ou 6 anos eu estava brincando no tanque de areia de uma pracinha de São Paulo. Sou uma citadina. Menina amarela, criada em chão de sinteco. Meu maior contato com a natureza era essa areia da pracinha. Eu já tinha dificuldade de locomoção. Tive pólio com sequelas aos seis meses de idade. Até os 5 anos, antes de minha primeira operação, não andava. Então eu estava lá na pracinha e tinha ficado em pé. Estava brincando com outra menina e caí. Não foi nada. A areia não deixou eu me machucar. Mas eu já tinha uma deficiência visível e a mãe da menina que brincava comigo pulou em minha direção, preocupada e reclamando com a própria filha. Lembro que olhei para minha tia que me acompanhava e continuava tranquilamente sentada a uma curta distância. Ela olhou pra mim e pra mãe da criança. “Tá tudo bem, minha filha? Se machucou?”. Eu balancei a cabeça em negativa. “Tá, pode continuar brincando. Se cair levanta. Se machucar a gente cuida e levanta também.” E pra mãe: “Ela está bem. Crianças caem.” A mãe ficou com uma cara espantada e sem graça, mas ali eu tive a primeira grande lição. Cair é da vida. A gente cai, literal e metaforicamente, diversas vezes ao longo de uma existência. Isso foi crucial em minha formação. Não era porque eu tinha uma deficiência que era diferente de qualquer outra criança. Apesar de cair, e caio muito até hoje, sem metáforas, eu era como todo mundo. A melhor forma de lidar com isso era não dar mais valor do que a situação demandava. Caiu, levanta e continua a brincar, a viver. Essa atitude de minha tia me deu uma força interior que eu acho que nem ela imagina. A força de continuar apesar da fragilidade exposta, a certeza de não ser pior ou melhor que ninguém. Ser apenas humana, falível, insegura, com medo dos chãos de mármore que a vida coloca em meu caminho, mas também com a certeza de poder vencê-los, e quando não puder vencê-los saber que eles não vão durar para sempre.

A filosofia, o percurso e o mundo

Recontextualizar a filosofia para mantê-la viva

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Em meu percurso de pesquisa filosófica comecei por um encantamento com a filosofia existencialista e ao conhecer a obra de Albert Camus, por uma ótica filosófica, decidi estudar a filosofia do Absurdo.

A filosofia do absurdo afirma que é necessária uma fidelidade absoluta para viver consigo mesmo neste mundo sem sentido. É no interior de sua consciência que o homem deve validar seus atos e, consequentemente, no mundo. É nesse contexto que se afirma a validade da compreensão da filosofia do Absurdo e da Revolta. Uma filosofia que tem como base a moral do não, que condena a história e se alimenta de acontecimentos históricos sem precedentes, que questiona o homem contemporâneo e sua relação com o mundo na busca incessante de uma moral. Camus rejeita todas as fugas consoladoras de uma realização no futuro e afirma a validade da lucidez contra o conformismo banalizante.

Através da decupação do ensaio O Mito de Sísifo, em que Camus desenvolve o tema do absurdo, explanei como o homem identifica o absurdo e se situa diante dele. Uma análise do romance O Estrangeiro foi incluída, pois nele Camus desenvolve a sua teoria em forma de narrativa, exemplificando os atos de uma vida absurda em seu confronto com o mundo. Abordei, finalmente, como a instauração da consciência leva o homem à Revolta e, assim, à sua responsabilidade na ação ou não-ação no mundo, utilizando como base o ensaio O Homem Revoltado, apenas na medida em que o tema escolhido foi tratado.

Quatro anos depois resolvi seguir a pesquisa acadêmica e dei uma guinada em minha área ao me deparar com o texto de um autor contemporâneo, Richard Rorty, ainda vivo na época. Em princípio achei que estava rompendo com toda uma base de formação epistemológica, entretanto acabei por concluir que existia complementariedade entre os trabalhos.

Quando em 1979 Rorty publica A Filosofia e o Espelho da Natureza ele foi criticado na Europa por ser um filósofo de tradição analítica que estaria rompendo com essa tradição, mas sem abraçar o correto caminho da confiança na razão. Nos Estados Unidos, por outro lado, ao tempo que fazia ressurgir o pragmatismo, ele foi criticado por estar cedendo “ao obscurantismo pós-modernista dos europeus” renegando assim a melhor parte de Dewey. E, pecado maior, ele estaria flertando com o “pessoal de letras”, não sendo rigoroso o suficiente, como exigia a ciência filosófica.

Suas ideias giram em torno de alguns eixos principais:

1) não é a filosofia que fundamenta a democracia, mas a democracia que oferece o campo de desenvolvimento ideal da filosofia;

2) a filosofia pode ser útil ao nos ajudar a responder: o que queremos fazer de nós? Ao invés de tentar inutilmente responder quem ou o quê somos;

3) cuidemos da liberdade que a verdade cuidará de si sozinha.

Na prática, em seus escritos, ele nunca deixou de falar de verdade, mas sempre assumindo que a verdade “em si” não existe. A verdade não pode ser independente dos enunciados do falante.

Não foi simples compreender o que Rorty dizia. Apesar da clareza de seus textos aprendi que uma pesquisa acadêmica se faz de re-leituras. É apenas na terceira ou quarta vez que uma frase salta aos nossos olhos e começa a se encadear com diversas outras frases lidas em outros livros. E as frases se encadeiam e passam a ter sentido dentro do contexto cultural que vivemos. Criamos inter-relações e assim construímos os significados. E o caminho é diversas vezes refeito. Gastei boa parte de minha pesquisa buscando a verdade em Rorty e só na metade do percurso foi que compreendi que não havia verdade a ser buscada. Nem em Rorty nem na filosofia. E a filosofia não tem verdade a buscar porque ela é apenas um gênero cultural, uma “voz na conversação da humanidade” que se centra num tópico em vez de noutro numa dada época, não por necessidade dialética, mas em resultado de vários fatores que se passam numa perspectiva holística do conhecimento.

Ao defender que a capacidade de reflexão e compreensão do ser humano deve ser vista mais como um histórico contingente, um processo evolutivo de adaptação às circunstâncias históricas e sociais, que só pode responder a questões pontuais Rorty me ajudou a reencontrar um caminho para o tipo de filosofia que me atraiu inicialmente.

Mudar o papel do filósofo e da filosofia dentro da sociedade democrática não é decretar o fim da filosofia e dos filósofos em geral. É recontextualizar o seu papel de forma que a filosofia tenha uma aplicação social. Abandonar a filosofia enquanto assunto técnico de especialistas é uma forma de manter a filosofia viva. Voltei ao percurso de, como Camus, validar a filosofia no mundo.

Livros para quem ama… livros

Ler pode ser o mais revolucionário e libertário dos atos individuais

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Livros, novos, com cheiro de tinta, ainda puros e intocados, permissivos às suas mãos e olhos vorazes. Livros, velhos e cheios de nódoas, amarelados pela luz, manuseados por mão diversas, marcados pelo suor. Edições simples e baratas, ou sofisticadas e luxuosas, de capa dura em letras de ouro ou de miolo em papel jornal. Diagramações gulosas, que enchem a página com margens mínimas, design espaçados e elegantes, de base alta e limpa. Quem ama ler, ama livros, não importa a forma. Seu conteúdo é mais importante. Mas isso não torna menos fetichista seu invólucro. Que leitor não cobiça os livros de luxo e alto valor literário da Bibliothèque de la Pléiade ou tem coleções de bolso em papel jornal dos clássicos noir? Quem nunca foi fisgado por uma capa de um autor que nunca ouviu falar ou foi o primeiro a abrir uma livraria para comprar o lançamento daquele autor adorado?

Abaixo 5 livros para quem ama livros. E você? Tem a sua lista?

Uma história da leitura, Alberto Manguel

Nesta obra fascinante Alberto Manguel relata a evolução do leitor com a leitura, o prazer do aprendizado com os livros, a descoberta de uma palavra e seus muito significados, a ansiedade de se chegar ao final de uma história, além de deliciosos relatos de personalidades e suas experiências e descobertas com o ato de ler.

Os livros e os dias, Alberto Manguel

Mais de Manguel, mas é que ele é um mestre na área. Misto de diário pessoal e ensaio crítico, Manguel faz aqui o que se tem chamado de bliblioterapia. Utiliza os livros para traçar paralelos com a vida cotidiana, o noticiário político, a crise de valores e ideologias, com obras seminais da literatura.

A paixão pelos livros, diversos autores

De Flaubert a Caetano Veloso, de Platão a Montaigne, de Petrarca a Carlos Drumond de Andrade, uma deliciosa seleção de textos de quem ama livros sobre suas leituras, experiências, observações, poesias e análises relacionadas à ato de ler.

Fantasmas na biblioteca, Jacques Bonnet

Bibliofilia, ou a arte de colecionar livros, um mal que acomete quase todos os leitores vorazes. Leitor desapegado do objeto livro é coisa difícil de se encontrar. E como esses leitores organizam suas bibliotecas? Passando por grandes bibliotecas públicas e privadas e suas formas de organização padrão ou extremamente pessoais, nos identificamos todos os que já tiveram dificuldade de encontrar o lugar exato de um livro em sua coleção. E não, quem ama livros não organiza bibliotecas por cor.

A construção do livro, Emanuel Araújo*

Esse é uma espécie de bíblia para mim. É uma obra de referência para profissionais e leigos que se aventuram nos caminhos da produção editorial. Nele você encontra absolutamente tudo sobre o universo do livro: organização, imagens, abreviaturas, preparação de originais, tipos de impressão, tipos de letra, papel. É um livro de consulta para quem faz ou quer fazer livros. E para fanáticos por livros também.

*Não é o Emanoel Araujo, artista, curador e diretor do Museu AfroBrasil.